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Crônica

Ela ficou por alguns minutos olhando a janela de seu quarto, observando as folhas da palmeira que crescia ali, há vários anos, balançar loucamente ao sabor da ventania, pensando como era estranho esse tempo para um dia de verão. Estava pensando, na verdade, o que faria de sua tarde naquele dia. Tinha acabado de assistir um filme que há muito tempo queria ter visto no cinema, mas que o tempo, o dinheiro, a preguiça na verdade, fizeram com que ela assistisse em casa, num dia esquisito de verão. Eram quase duas horas da tarde, e a vida estava movimentada fora de sua janela, nas ruas. Pensou primeiramente em ir à academia, mas sabia que seu plano inicial, mais tentador, era passear com o cachorro. O cachorro era um disfarce, na verdade. Ela queria era assistir às pessoas. Quando finalmente tomou sua decisão, toda a paralisia de que padecia o seu dia, naquele quarto mal iluminado, dissipou-se; ela rapidamente foi ao banheiro, escovou os dentes, penteou o cabelo, colocou uma roupa que deliberadamente a denunciava ser uma moradora da região. “É um estilo”, ela pensou. Pegou uma sacola e um pouco de papel higiênico. Fazia parte de manter o disfarce; o disfarce poderia fazer cocô na rua. Vendo-a arrumada para sair, o cachorro ficou alerta; a esperança que fazia os olhos desses animais vibrarem toda vez que alguém se aprontava para sair era impressionante. Ela prendeu a coleira ao cachorro, que já arfava de incontrolável emoção, e saiu porta afora.

Na rua, decidiu ir até o final da avenida principal. Como imaginara antes de sair, havia muitas pessoas indo e vindo, voltando de seus almoços. Não iria ficar simplesmente vagando por aí; isso não era muito útil para fazer o que ela queria, que era assistir às pessoas. Pensou no vão livre de um conjunto arquitetônico suspenso, que cortava a avenida em dois. Quando chegou ali, havia uma manifestação, uma cantoria na verdade. Percebeu policiais por perto, o clima confuso. “Se tiver que correr, não será possível, com essa gente, esses calcanhares esfolados, e o cachorro”. Então decidiu entrar no parque local. Deu umas voltas. Mas ali também não era apropriado para assistir às pessoas. Não havia muitas ali, e as que tinham, estavam aninhadas em cantos cobertos por grandes árvores, suas figuras quase sendo absorvidas pelas folhagens úmidas. Ali era sempre úmido.

Saiu do parque. Andou mais um pouco. O andar às vezes era singular, às vezes era plural; ela se conscientizava de que estava sendo acompanhada pelo cachorro apenas quando este esbarrava sem querer nas suas pernas. Mesmo tendo de puxar a coleira para evitar que o animal se metesse num arbusto mais espinhento, ou fizesse xixi na entrada de algum prédio, o cachorro assumia um papel claro: disfarce.

Chegou a uma galeria aberta. O disfarce finalmente cumpriria sua função. Ali perto havia um pequeno café apertado entre outras lojas maiores, incrustada na parede, que vendia pastel de nata e café, um combo que estava na promoção e custava 7 reais. 

Entrou na galeria. Ela avistou um banco livre, e sentou-se ali. E se pôs a assistir às pessoas que passavam ali, algumas apressadas, outras, como ela, sem horários, ou compromissos. Percebeu que havia uma senhora sentada no banco ao lado, fazendo movimentos de se virar para o seu lado, olhando o cachorro. A senhora se mexia assim constantemente, parecia hesitar antes de tomar alguma decisão importante. Não se assustou quando a senhora levantou-se e resolveu se sentar ao seu lado. Não demorou para puxar o papo. “Que raça que é?”, perguntou a senhora, jogando uma frase tão manjada quanto uma cantada de bar. Era equivalente ao “Você vem sempre por aqui?”. Mas a companhia daquela senhora não era ao todo desagradável. Era evidente que a senhora queria contar coisas da sua vida, algumas pessoas sentem essa necessidade. Disse que o cachorro lembrava a cadela que seu filho criava, e que ela lembrava a sua nora, de origem japonesa. Contou o episódio do filho trazendo o animal para casa, a despeito da opinião contrária de sua esposa, que havia limitado o espaço do animal à cozinha. Hoje o casal dormia junto do animal, e este tinha sua caminha separada, mas no mesmo quarto. Riram sobre esse desfecho. Era interessante ouvir o desenrolar de uma vida alheia. 15 anos casados. Sem filhos. Decisão de criar uma cadela. Bulldog francês, fêmea, criada como se fosse o bebê do casal. Passeios semanais de domingo, no Ibirapuera. Moram na Aclimação, assim como a senhora. O cachorro sabe buscar objetos, e tem uma refeição rigorosamente planejada - uma maçã de manhã, ração no almoço e pêra de tarde. As frutas devem ser picadas em pedaços bem pequenos, se não o animal não come, e fica olhando para o ser humano mais próximo com aqueles grandes olhos meio esbugalhados, indagativos. O animal já levou bronca porque roeu o livro do dono. Ele é arquiteto, assim como a esposa. 

Uma lista de informações que permitia construir um quadro perfeito, com suficientes detalhes, de um casal e seu bulldog francês, vivendo em um apartamento decorado de forma simples e moderna (o estereótipo dos arquitetos). Ela se sentia como se devesse algo à senhora, que lhe deu este quadro de presente, ainda que não o tivesse pedido. Mas nada se podia fazer à senhora, além de lhe fazer companhia por mais um tempo. Ela esperava sua irmã, que trabalhava como secretária para uma senhora de 80 anos muito rica. Esta acaba de voltar de um voo de 12h de Dubai. A irmã tinha um problema na perna, andava apoiando-se a uma bengala. Juntas esperaram por uma senhora de bengala sair do ônibus, havia um ponto de ônibus em um dos extremos da galeria. 

Passados 5 minutos, o cachorro e ela estavam impacientes. Percebeu a senhora olhando o relógio, então perguntou-lhe as horas. Disse que teria que ir, talvez ir atrás do pastel de nata que vendiam no outro extremo da galeria, naquela loja incrustada. Foi-se. Comeu o pastel e bebeu o café, combo que estava na promoção, e custava 7 reais. Enquanto comia, um homem que também era cliente da lojinha disse-lhe que estava judiando do cachorro, que há vários minutos babava de olho no pastel e no café. O pastel era incrivelmente apropriado, assim como o café. Ela assistiu mais um pouco às pessoas. Na parede interna da cafeteria, havia trechos de poesia de Drummond. Eram bonitas, mas provavelmente não muito significativas, pois logo ela se esqueceu.

Quando foi pagar, teve de esperar mais do que seria o de costume, porque um outro homem, que estava comendo o combo pastel e café quando ela chegou, mas que tinha ido embora, voltou com seu amigo, e ordenou à funcionária que servisse outro combo ao seu amigo. Tudo naquele homem era desnecessariamente grande; sua barriga era imensa, apertada pelo cinto que estava incrustado no corpo, e embrulhada numa camisa social azul escura, suada. Jazia uma gravata sobre essa barriga, acompanhando a grande curva que era interrompida pelo cinto. Mas mais do que a barriga, que mal cabia no pequeníssimo espaço daquele café, o homem era um daqueles que se fazia amigável sendo autoritário e abusado - gritava, e não falava; ordenava, e não pedia; para completar, fez a piada de lhe servir um copinho de uísque, enquanto a funcionária lhe servia a água com gás. E jogava o dinheiro sobre a mesa, espalhando as moedas, e gritando sempre que podia. Ela não pôde esconder sua repulsa por este homem, que de alguma forma destoava completamente da senhora, ainda que nada permitia compará-los de forma objetiva. Abriu a carteira, tirou duas notas, uma de cinco, outra de dois. Interrompeu a gritaria daquele homem que mal cabia ali, e perguntou se poderia deixar o dinheiro com ela. 

E se foram, ela e o cachorro. 

——

Y. L. K.

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procrastinação #1242…

A gente se acostuma a andar sozinho. De verdade, eu me acostumo a andar sozinha. Sustentada pelo impulso e pela força das próprias pernas, equilibrando-me com o agitar dos meus braços. Movendo um punhado de ar com o andar, que mais parece uma bolha pessoal. Eu aprendo a existir sozinha. Organizo a minha vida, a minha rotina, sozinha. E enfrento tudo, sozinha. Falo e julgo, sozinha. Me calo, sozinha. E ser sozinha não é um lamento, tampouco um apelo. Não é poesia de uma solitária. Não é carência fantasiada de filosofia. É a essência de mim, e de todos. É a circunstância em que nascemos, e na qual morreremos.

A gente se acostuma a andar juntos. De verdade, nós nos acostumamos a andar juntos. Ainda nos sustentamos pelo impulso e pela força das respectivas pernas, equilibrando-nos com o agitar dos respectivos braços. Movendo punhados de ar que se fundem, confundindo braços e pernas. Nós aprendemos a ajudar o outro a existir sozinho, e também em comunhão. Organizamos as nossas vidas, as nossas rotinas, juntos. E enfrentamos tudo, juntos. Ainda falamos e julgamos, sozinhos, mas agora temos consciência de seus impactos ao outro. Nos calamos, juntos, mas é muito mais raro agora. E ser juntos (e não estar) não é um canto, tampouco uma celebração. Não é poesia de casal. Não é dependência fantasiada de status social. É a essência de nós, e de todos. É a circunstância que escolhemos, e que seguiremos.

Como somos teimosos na nossa faculdade para escolher nossos caminhos, e quão belo é essa possibilidade. Como somos melhores quando juntos, apesar de nada nos obstaculizar em existir sozinho. Existimos sozinhos, melhores, quando existimos juntos. 

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